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Uma introdução à teoria dos jogos cooperativos

A Teoria dos Jogos estuda situações em que nossos resultados dependem não apenas das nossas decisões, mas também das escolhas dos outros.

Isso acontece o tempo todo: em negociações, mercados, projetos colaborativos, infraestrutura compartilhada, coalizões políticas — e até na decisão cotidiana entre cooperar ou agir sozinho.

Na teoria dos jogos cooperativos, porém, o foco muda.

Em vez de perguntar:

“Qual jogada devo fazer agora?”

fazemos uma pergunta diferente. Mais simples. E, muitas vezes, mais prática:

O que ganhamos ao cooperar — e como devemos dividir esse ganho?

Imagine um grupo de agentes capazes de formar alianças. Sozinho, cada um consegue gerar algum valor. Juntos, frequentemente conseguem gerar muito mais.

Mas o ponto realmente interessante não é apenas que a cooperação cria valor.

É que grupos diferentes criam quantidades diferentes de valor.

Algumas coalizões são fortes. Outras são fracas. Certos participantes são decisivos em algumas combinações, e quase irrelevantes em outras.

A teoria dos jogos cooperativos surge exatamente para descrever e analisar essa estrutura da cooperação.

Aqui, não nos concentramos em decisões passo a passo nem em estratégias individuais. Assumimos algo diferente: que os participantes podem firmar acordos vinculantes1.

O objeto central deixa de ser a estratégia e passa a ser a estrutura de valor das coalizões — isto é, quanto cada grupo possível consegue gerar quando coopera.

A partir daí, começamos a fazer perguntas como:

  • Quem é essencial para que a cooperação funcione?
  • Quais acordos são estáveis, no sentido de que nenhum grupo tem incentivo para abandoná-los?
  • O que significa, na prática, uma divisão “justa” do resultado?
  • Até que ponto o resultado depende de poder de barganha ou de regras de votação?

Perguntas diferentes levam a conceitos de solução diferentes.

Alguns priorizam justiça e simetria. Outros enfatizam estabilidade e resistência a desvios. Outros ainda capturam influência ou poder dentro do grupo.

Nenhum deles é universalmente “correto”. Cada um reflete uma maneira particular de enxergar a cooperação.

Um exemplo ajuda a visualizar isso.

Imagine que a construção de um gasoduto poderia beneficiar várias empresas interessadas. Construí-lo é caro demais para uma única empresa. Mas, quando várias se juntam, o projeto se torna viável.

Diferentes grupos de empresas conseguem viabilizar o projeto de formas distintas e, portanto, gerar custos de construção diferentes.

Surge então a pergunta natural:

Como dividir, de forma razoável, o custo — ou o benefício — dessa cooperação?

A teoria dos jogos cooperativos fornece as ferramentas para descrever situações como essa e comparar diferentes formas de repartir o valor criado quando agentes decidem cooperar.

As próximas seções não têm como objetivo sobrecarregar você com definições formais ou provas técnicas.

O objetivo aqui é outro.

É construir intuição.

Entender o que cada conceito procura capturar, por que ele funciona daquela maneira e como interpretar seus resultados na prática.

Se, ao final, você conseguir olhar para uma alocação e pensar:

“Isso faz sentido, dado o que valorizamos aqui: justiça, estabilidade ou poder.”

então você já terá entendido a essência da teoria dos jogos cooperativos.


  1. Um acordo é dito vinculante quando não há possibilidade de blefe. Se os agentes fazem um acordo, não é possível que algum deles deixe de cumpri-lo.